sábado, 26 de maio de 2012

É, tem horas que a gente tem que começar a abrir mão de algumas coisas, pra que outras aconteçam... Lei da natureza. Acho que o blog, após tantos anos, pode ser uma delas.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Bom dia, doutora!

Um dia eu cheguei na sala de audiências da 33ª Vara do Trabalho de Salvador, onde eu iria auxiliar a juíza titular de lá, conforme havia sido determinado – e vinha sendo cumprido – há alguns meses. Aí chego lá e digo: bom dia doutora (o capítulo da forma de tratamento, da utilização do “doutora”, acho que é muito extenso pra aparecer agora, deixo pra outra ocasião). E a juíza me responde: só se for bom pra você, o meu só vou saber quando o dia acabar.

Brincadeirazinha da magistrada, mas que me fez pensar um pouco. Quando se diz “bom dia”, me parece mais lógico que aquilo não é uma constatação, e sim um desejo. A expressão exata, como diria Fred Zeroquatro, na real, poderia ser “que você tenha um bom dia”, seria algo como aquela figura de linguagem chamada elipse. Só não lembro se a elipse pode ser caracterizada quando do sumiço de mais de uma palavra. Mas se não for a elipse é uma prima dela. (Parêntese pra o que sempre me fez parecer tão óbvia e nunca esquecer dessa ilustre figura de linguagem: a relação com a palavra "eclipse", que me remetia ao sumiço. Macuchi muita onda, como diria Gerônimo...)

A ordem dos tratores altera, sim, o viaduto.

Mas então, uma onda esse onda da linguagem também né? Eu sempre viajei em escrever da forma que eu falo, sem querer seguir muito regras gramaticais que me pareciam inúteis. Tipo aquela de que não se começa uma frase com o “me”, “se”, ou sei lá o quê. Se quem inventou isso soubesse do quão inútil essa regra é, acho que não teria nem inventado. E aí um dia desses terminei no busão pra o trabalho a leitura de um livro que há tempos eu devia para mim mesmo, o Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. E tem uma besteirinha que ele fala lá que é uma constatação tão óbvia que às vezes a gente até esquece: a gramática serve para “descrever” o funcionamento da língua, não para “definir” o seu modus operandi. Que coisa mais besta, no entanto fundamental, né? Nesse caso específico a ordem dos tratores altera, sim, o viaduto. Pois então... O que caras pseudo entendidos da língua, como Pasquale Neto por exemplo, querem é simplesmente aprisionar uma coisa inaprisionável. Se fosse pra fossilizar a língua, acho que o português nem existia, tava ainda no espanhol ou no latim, sei lá.

Enfim, mas essa regra é universal eu acho. Não dá pra inverter isso. A teoria é dependente da prática, não o inverso. Os conhecimentos teóricos servem pra que a gente consiga entender melhor a prática e com ela se relacionar de uma forma melhor, não pra definir como as coisas devem acontecer no “mundo real”. O critério tem que ser, sempre, a prática. Dentre alguns que falam disso lembro facilmente do chinês Mao, em Sobre a Prática.

Bagno = desdobramento linguístico de Freire.

Porra, aí vem a segunda leitura que eu penso que deveria ser obrigatória pra todos, ainda na escola mesmo: Pedagogia da Autonomia, do broder Paulo Freire. Porra, que onda da porra (afemaria... sim, o “porra” é uma constante no meu falar baianesco), o livro que acho que deveria ser pra todos lerem é justamente um que fala de como a escola e seus conteúdos tem que ser adaptados ao contexto de cada realidade. E que esses conhecimentos/conteúdos devem ser uma arma na luta pela autonomia de cada ser humano. Muito foda, muito básico pra uma compreensão mais legal da sociedade, na minha opinião. Tanta gente lendo umas auto-ajuda doida por aí, e Paulo Freire aí dando mole pra quem quiser se interar... Salve dona Joanete Silva Pereira, vulgarmente conhecida como minha mãe, que me deu esse livrinho do mestre Paulo Freire.

Pouca merda ou pinico cheio?

Certo dia alguém falou pra mim: porra, você sabe muito de regras gramaticais. E aí eu penso: que onda, basta saber repetir alguma merdinha de regra tipo decorada e a pessoa já acha que a gente sabe alguma coisa, já acha que a gente num é pouca merda, e sim um bom de um pinico cheio. Primeira indicação de que a gramática normativa do jeito que existe hoje não é nem um pouco íntima dos verdadeiros usuários da língua. O que não quer dizer que eles falem errado, pelamordeus, não vamos cair nessa cilada. É justamente a comprovação de que a gramática que a gente vê, na, ainda, infelizmente, maioria dos livros, nada tem a ver com a língua, são coisas absolutamente diferentes. É a onda da teoria, que se desenvolveu, a princípio, para explicar a prática, e chegou, incrivelmente, a uma autonomia e, ainda por cima, passou a quer, absurdamente, domar o funcionamento real da língua. Erro primário achar que a onda é por aí né?

E só pra terminar as viagens do livro de Marcos Bagno, teve alguns momentos que remeteram absurdamente ao meu tempo de colégio. Estudei num típico colégio particular de Salvador, onde imperava aquela mentalidade focada no vestibular. Rapaz, a gente estudar “oração subordinada substantiva objetiva direta derivada do caralho a quatro” não me fazia escrever nem um pouco melhor. E, realmente, não me levava, nem ao menos, a entender melhor o que eu escrevia. Lembro que quando chegou nesse ponto das aulas de português eu fui muito mal. Pareciam coisas sem sentido (e eram). Mas ainda assim, na hora da redação eu me dava bem.

Sim, mas o pinico era cheio né?

Mas voltando às regras gramaticais que eu sei de có (acho melhor escrever assim do que “de cor”, que acho que gera confusão com o “cor” de cores e tal...), as duas regras que eu mais falava e que ajudavam a algumas pessoas acreditarem (tem gente que acredita em cada coisas...) que eu sabia muito de gramática, me vieram por motivos bastante esdrúxulos. Uma era a de que “óxitona terminada em U, precedido de consoante, não se acentua”. E porque diabos eu sabia disso? Além da estranheza que me batia ao ver a cidade de Aracaju ganhar um acento no final, sempre que eu via alguém escrevendo a palavra “cú” assim, com acento, aquilo me dava uma gastura. Me parecia tão feio (olha eu usando o “me” no início da frase...). Eu não sabia porque, mas sabia que aquilo ficava visualmente feio pra mim. E daí, a primeira vez que ouvi essa regra, fiz questão de decorar pra poder explicar pra meus amigos que não adiantava me mandarem tomar no “cú”, pois se queriam me atingir era bom melhorar a mira.

A segunda regra gramatical que eu costumava utilizar era a de que “somente entre duas vogais o R (érre) tem som de rrrê”. Isso era muito usado pra explicar a estranheza que me causava uma expressão típica da etílica cidade da Bahia: roska de frutas. (Pra quem não é de Salvador vale explicar que a “roska” nada tem a ver com a cavidade anal, mas somente uma independência que um trecho da palavra “caipiroska” tomou pra poder indicar as outras frutas que poderiam servir de base pra a bebiba, tipo roska de morango, roska de kiwi, e por aí vai). Mas puta merda, quem poderia me dar uma lição dessas senão o mais louco e mais profícuo letrista da mais influente (no meu mundo, cada qual tem o seu) banda de todos os tempos? Porra, se Galvão não fala aquilo no meio de uma música do Novos Baianos, comentando sobre a ideia de Baby do Brasil (à época Consuelo) pra nome da filha e mostrando sua impossibilidade gramatical, eu nunca ia nem pensar a respeito disso. Diferente do cu, que tinha motivo quase de auto-defesa, essa regra eu diria que foi mais um aprendizado musical.

A Justiça é lenta.

Tem gente que diz que eu sou lento. Vai ver que foi por isso que fui parar na justiça. Aí, a justiça né? O motivo, por sinal, que, em grande parte, me fez atrasar pra cacete a postagem aqui no blog... É, se eu sou lento, juntou com a justiça, fudeu. Tá comprovado então que a justiça é lenta. Ou melhor, tá comprovado que quem trabalha na justiça é lento. Ou melhor ainda, tá comprovado que quem trabalha na justiça se fode tanto que fica lento pra os outros atributos da vida cotidiana. Pronto, assim tá legal. Por sinal esse blog já é lento desde o nome né? Sim, mas quanto a mim e ao atraso de postagem (até parece que recebi milhares de imeios reclamando da falta de atualização do Caramujo News, hahahahahaha), tô eu trabalhando que nem um sacana em prol da justiça brasileira quando, pra completar, meu computador dá pau. Quando urubu tá com azar, o de baixo caga no de cima, já diziam os filósofos. Por isso inclusive que não colocarei os links das minhas conexões mentais musicais dessa vez, o computador do qual eu faço uso ficou sem som, só tá funcionando no modo de segurança, tá um cacete armado da porra.

Sim mas a justiça veio no papo porque lembrei de uma entrevista que vi há um tempo atrás, com o advogado geral da união no Roda Viva da tevê Cultura. E essa lembrança sobreveio mais uma vez, por sinal, quando conversava com o amigo Rafael, vulgo Estalonge ou Judeu, num barzinho na simpática cidade de São Paulo, esses dias. Na entrevista lá na tevê o camarada dizia uma coisa muito interessante. Questionaram ele sobre a responsabilização de policiais ou servidores da justiça que deixavam vazar grampos telefônicos de processos em sigilo de justiça, os quais eram apresentados até cansar em veículos de comunicação. Ele disse uma coisas simples e clarificadora: “okay, temos que responsabilizar os culpados do vazamento; mas e os veículos que, mesmo sabendo que aquele material que tiveram acesso é sigiloso e coloca no ar em rede nacional em horário nobre? Eles não deveriam ser responsabilizados também?”. Putaquepariu, papo reto, deu a voz, formô, é nóis. Existe uma onda aqui no Brasil de que qualquer coisa que fizerem em relação à televisão é censura, é tentativa de impedir a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão. Ah, vai pra baixa da água com essa conversa né bróder?! Fez sua merda, agora guênte a rebordosa. Quer audiência a qualquer custo? Segure seu pepino depois também. Esses picaretas mamateiros privilegiados por concessões públicas tem que ser responsabilizados sim. Mas como não são, essa merda tá desse jeito, a galera faz o que quer, mostra cadáver ao vivo ao meio dia, divulga coisa judicialmente sigilosa...

E viva a baixaria!

Tinha uma frase de Jim Morrison que dizia: a única obscenidade que conheço é a violência, ou algo quase assim. E eu viajo que é bem por aí mesmo. Tem gente que vive falando das bandas de pagode da Bahia, do Funk Carioca e de outros ritmos/grupos que fazem música com conteúdo sexualizado. Porra, na real, após refletir um bocadinho sobre essas coisas, cheguei a uma viajem um pouco mais louca. Essas danças que simulam atos sexuais e essas músicas que fazem referência a coisas do gênero, são uma realidade, na minha opinião, consolidada. Não dá pra ir de encontro a esse movimento. O que eu acho que pode haver é o cuidado com os ambientes em que elas são expostas. Acho que as crianças/adolescentes serão, em algum momento da vida expostas a essas coisas. Mas sei que às vezes se tem a sensação de sensação de que “tão indo rápido demais”. Então beleza, hoje, não vou nem sair do contexto cultural ocidental impregnado de influência do catolicismo e de sua lógica de que o sexo é algo criminoso. Vou pular esse debate pra não estender demais o papo, vamos partir do pressuposto que é essa a opinião “natural” da população. Vamo somente pensar em como podemos organizar as coisas de uma forma mais light.

Na sombra da noite acontecem coisas.

O que acontece dentro de uma boate, onde só entram maiores de idade, é de responsabilidade de quem tá lá, de quem entrou. Então pronto, se o cara ou a bróder tá lá, tá pagando pra ver. Aí mermão, pode até “ralar a tcheca no chão”, que tá de boa. Cada um rala sua porra onde quer. Se for então só nas festas específicas, nos locais devidos, tá tudo de boa, a criança iria somente no momento certo, com uma certa idade e lá ela estaria apta a compreender melhor o significado daquelas danças e músicas. Então, pronto, fechô, essas danças e manifestações ficando restritas a locais onde só entram maiores de idade, tranquilo. Okay. Mas, dentro da lógica cultural dominante atualmente, o problema é que essas porras acontecendo a toda hora em todo lugar e enchendo os olhos de crianças que poderiam estar sendo, apressadamente, encaminhadas para uma vida sexualmente ativa. Eu sinceramente tenho muitos questionamentos quanto a essas interpretações, mas vamos lá, como eu disse, hoje vou pular essa parte. Se o problema é esse, manda essas músicas e danças pra um local fechado, de acesso restrito e pronto, tá resolvido o problema. Resolvido?

(Parênteses: Tem gente que ainda vai chegar pra dizer que com 18 anos a “criança” ainda não tem discernimento e tal. Certo, pode até ter algumas que não têm. Mas o papo nesse momento aqui é sobre leis que sirvam pra um país todo, e pra isso tem que generalizar. Assim como com 18 tem gente que ainda não tem discernimento pra votar. Com 16 então... Mas tem que generalizar.)

E o bandido da história, quem é?

Velho, aí chega ao ponto que eu tanto gosto. Livrei até a cara da igreja e seus postulados sobre como devemos fazer sexo no mundo ocidental pra poder lembrar dos grandes picaretas da história. Até já tinha falado antes sobre eles mas, nesse momento vale relembrar: quem fode tudo, como sempre, são os veículos de comunicação de massa. Pronto, tem algo de novo nisso? Um dia os caras tão lá escaldando “um grupo de adolescentes que, forçosamente, praticou sexo com outra adolescente”. E no outro dia eles estão lá fazendo concurso da nova loira do Tchan e metendo o cu das mulheres pra cima e os peitos de fora em banheiras ao domingos a tarde. E essa putaria vem de tempos, né? Bolinha, eu bem me lembro (bem me lembro!), já botava um bocado de mulher de biquíni, sem contexto nenhum, dançando atrás do apresentador.

Resumindo a história, tem um bocado de machismo também por aí, mas o que me agoniou hoje mesmo foi viajar nessa onda de que, se se fala por aí tanto de que as crianças estão sendo expostas a músicas e danças sexuais, por que desgraça só se crucifixa as bandas e artistas que fazem isso? Por que ninguém mete o pau na porra dos meios de comunicação de massa que exploram isso em alta? É a mesma história das gravações sigilosas que “vazam”. Só quem tem que se fuder é o cara que “produziu” o vazamento, quem divulgou não tem que receber nenhuma sanção, vez que não pode ser podada a liberdade de imprensa né? Ah, na moral, eu quero é prova e um real de big-big.

Você samba de que lado?

Porra, pra variar, o papo podia render mais algumas horas. Eu mesmo tenho um bocado de coisa na cabeça que coloca em dúvida minhas próprias colocações. Mas tem que ter um limite essa merda aqui. Tem um bocado de variável, tem novas tecnologias – como a internet – se metendo na história, tem velhos conceitos, preconceitos e sexismos antigos, tem a velha igreja e sua influência bizarra em tantos pontos da estrutura de sociedade que existe hoje... Mas pra terminar, não vou me alongar não, mas pra voltar pra o início: por que caralha eu tenho que chamar de “doutor(a)” umas peças que de doutorado acadêmico não tem nada e, a maioria, muito menos ainda tem de possíveis honoris causa ou reconhecimento espontâneo da sociedade?

Ói, me deixe viu?! Eduardo Sá, grande amigo, me mandou uma mensagem esses dias falando de um texto aqui no blog e me fez pensar que ele, assim como eu, tenta sambar sempre do lado bom, do lado do povo. Tamo nessa. E a Babilônia, os pseudo-doutores por aí, a gente convive porque ainda não sabe como escapar. Mas Doutor de verdade pra mim é Mestre João Pequeno de Pastinha, é Mestre Didi, é Dona Joanete Pereira, é Seu Valdumiro Galindo. Minha identidade cultural, apesar de misturada e resignificada (ou traduzida, como diria Stuart Hall), tem alguns portos-seguros. E deles eu não abro mão.

Eu já vou embora
Eu já vou, beleza...



......

Referências/citações do texto (mesmo que mentais):

mundo livre s/a
Gerônimo
Mao Tsé Tung
Dona Joanete e seu Galindo
Paulo Freire
Marcos Bagno
Novos Baianos
Roda Viva – TV Cultura
The Doors
Edson Gomes
Chico Science
Stuart Hall
Mestre João Pequeno

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Viva o povo brasileiro

O Brau

A Bahia é foda, só tem brown, já gostava de dizer meu amigo Eugeniusz Kowalski. Talvez quem não é baiano tenha uma certa dificuldade de compreender o sentido da expressão, não sei se ela é usada nacionalmente. Aliás, não sei nem se ela sai dos limites de Salvador, pra ser mais preciso. Em alguns momentos já tive uma compreensão do vocábulo como uma expressão um tanto preconceituosa/racista. E essa interpretação provém de uma tradução direta do inglês né? Brown: marrom em inglês. E marrom é cor de quem mesmo? Pra quem não compreende a utilização dessa expressão no linguajar baianês, pode achar que estou naquela de complexo de perseguição. Mas quem é de Salvador, se pensar um pouco na utilização majoritária da expressão, certamente perceberá como ela recai na maioria das vezes sobre coisas típicas do chamado “povão”, ou seja, majoritariamente sobre os afro-descendentes, sobre atitudes/atividades majoritariamente exercidas ou ligadas aos afro-descendentes. Marrom é a cor da pele dos negros né? Pode crer. Mas aí, depois de algum tempo, me vieram outras possibilidades de referências pra a origem no nosso querido “brown”.

Viagem 2, bem louca (só pra organizar as ideias, a viagem 1 era a da tradução do marrom): Eu não conheci, realmente não é de meu tempo, mas acho que geral já ouviu falar do Mobral. Mobral era a sigla para Movimento Brasileiro pela Alfabetização. Então... Eram, em sua maioria, adultos em busca de letramento, parte também daquela instituição indeterminada, porém rejeitada, chamada povo. Fiquei pensando que essa galera que recorreu ao Mobral pra conseguir sua alfabetização pode ter, pelo pouco que conheço do funcionamento da sociedade brasileira, recebido um tratamento um tanto preconceituoso. Tipo assim, o cara que era meia boca nos estudos, pode acabado sofrendo piadinhas do tipo: esse aí veio do Mobral! E aí “Mobral”, na pronúncia é igual a “mó brau”, que, por sua vez, é quase igual a uma contração natural da forma real de se falar “maior brown”. E aí o maior, em alguns momentos pode se sair e pronto! Tá feita a nova palavra!

Viagem 3 (talvez a menos absurda): teve uma entrevista de Mano Brown, que vi já faz bastante tempo, na qual ele falava sobre a origem de seu nome artístico. Ele disse que na época em que ele andava fazendo barulho e cantarolando no fundo dos ônibus, mandando umas batidas que deviam incomodar alguns passageiros, lá pelo fim dos anos 70, quem estava em destaque no mundo era um camarada chamado James Brown. E disse que qualquer um (se bem me lembro acho até que ele falou “qualquer negro”) que chegasse zoando, fazendo um som e tal, era logo chamado de James Brown. O cara era a referência de som negro, de batida da moda, e o nome dele acabava virando quase um adjetivo pra uma galera. O cara era (e ainda é, na real) “o cara” daquela época. Aí me veio logo uma imagem de Carlinhos Brown batucando no fundo de um busu a caminho do hoje famoso bairro do Candeal e sendo chamado de James Brown também. Achei bem factível a situação, assim como essa origem do termo “brown” (ou “brau”, o seu abrasileiramento).

Rap, língua do povo

Falar de Mano Brown é falar de rap Brasil. E aí, do rap, me vem uma conexão com o vídeo A Sombra de um Delírio Verde < link do video > que peguei via indicação do Camarada André Caroço, colega de faculdade, menino esperto que tá ligado no que acontece pelo mundo e sabe transformar isso em letras de músicas muito boas, como fazia quando a sua banda, Meio Metro, estava em atividade mais intensa. Pois então, o vídeo mostra uma realidade muito escrota a que estão submetidas comunidades indígenas no Brasil, algo muito delicado e que merece bastante atenção. Mas o que me fez lembrar do vídeo agora, foi ver lá, no meio do vídeo, o rap acontecendo, sendo feito por descendentes indígenas. E me chamou a atenção, mais uma vez, pra o significado do rap pra as comunidades marginalizadas da sociedade. É muito foda.

Calabar

Lembro da época em que estagiei na Rádio Comunitária a Voz do Calabar. Quem conhece Salvador deve saber onde fica o Calabar, um pequeno bairro pobre sobrevivendo espremido no meio de uma área nobre, entre os bairros turísticos/carnavalescos da Barra e Ondina. Então... Foi chegando lá que comecei a me dar conta do alcance do rap e da importância dele pra comunidades menos abastadas e mais marginalizadas. Nesse estágio lá na rádio eu fiz de tudo. Tentei organizar a grade de programação, trabalhava na produção de todos os programas – tentando não mudar muito os caminhos que já existiam com a rádio comandada por membros da comunidade –, operava os equipamentos quando necessário e até locução cheguei a fazer algumas vezes. E, como diria Renato Russo, me diz: pra mim o que ficou? < link da música > O que mais me marcou foi o programa de rap que era feito pelos camaradas Ratinho e Juninho. Tinha ainda um outro camarada do Alto da Pombas (um bairro conexo) que aparecia de vez em quando também e me impressionava pela clareza das colocações, pena que não lembro o nome dele mais. É, tudo bem não lembrar, nessa brincadeira essa experiência na rádio durou uns seis meses eu acho, e aconteceu há uns bons dez anos...


Mas pra não perder o fio da meada, foi nesse programa que passei a ouvir com freqüência grupos como SNJ, 509-E, Racionais, RZO e mais alguns clássicos do Rap nacional. E foi nessa época que vi o impacto que aquele som tinha pra aquela galera. Se pra mim, menino criado em playground à base de ovomaltino, aquela coisa já fazia sentido, pra eles aquilo era a realidade 100%, tá ligado? Era muito forte mesmo. E uma coisa importante da programação da rádio lá era que só tocava rap nacional. Porque, assim, musicalmente os gringos são referência, indicam tendências sonoras, mostram qualidade e, assim como aqui, também tem o groove afro-descendente, beleza, pá. Mas quando falamos de mensagem, o que se destaca hoje no estrangeiro são músicas de conteúdo um tanto quanto questionável. Não sou contra os caras falarem as porra dele lá não, que pegam mulher, que tem dinheiro, que fazem e acontecem... Vá lá, cada um na sua, tem que ter espaço pra eles falarem disso. Mas assim... Os caras deslumbraram né? Só falam disso. Ou melhor, o que chega aqui, 90% é nessa pegada. Bem que podia ter outras coisas se destacando também né? Ainda bem que na Radio Comunitária A Voz do Calabar a influência era 100% brazuca, num rolava gangstar/playboy estadunidense...

Rapagode, som do povo

Um dia minha irmã, Juliana Pereira Galindo, chegando do trabalho me disse: ó aqui ó, toma aí pra você. Era um DVD promocional de uma banda que eu facilmente classificaria de pagode baiano, ou suingueira. E aí, como eu já tinha ouvido alguns rumores sobre a tendência que esse grupo tinha de mandar umas mensagens legais, resolvi ver dacoléra. Ou melhor, ouvir pra ver dacoléra deles. E não é que a parada era boa mesmo? Aquela banda simbolizou pra mim a conexão dos sons que fazem a cabeça da população nos subúrbios e áreas marginalizadas da sociedade soteropolitana: o rap e a pagodão baiano. É uma interessante tendência de conectar o som contagiante do pagode baiano com as letras mais preocupadas socialmente do rap. Fiquei chapado com o DVD. Caracas, os caras brocaram muito nessa conexão musical aí. É papito, o grupo Fantasmão foi algo que me surpreendeu pra caralho nessa época e me deixou muito feliz. E pra completar, quando baixei um disco deles na net, olha o que tava lá, os caras faziam uma cover de Chico Science & Nação Zumbi. Aí fudeu, fiquei fã.

Lei da atração e lei da percepção

Muitas vezes na época que eu estagiava no Calabar me perguntaram “que porra eu tava fazendo naquelas áreas?!” Tipo assim, um lugar perigoso e tals... Mas rapaz, assim... Eu acredito pra cacete na lei da atração. Eu não fico viajando que vai dar merda nenhuma, em nenhum lugar que eu vou. Claro que isso não quer dizer andar de bobeira, até porque os velhos capoeiristas, como o Mestre Doutor João Pequeno, já ensinavam: o capoeirista conhece o amor, mas sabe que a maldade existe... Ou seja, a gente tem que andar ligado. Allright! Mas, no meu entender, quanto mais a gente foca os pensamentos em coisas boas, melhor é nosso caminho. É a lei da atração...

Aí um dia eu tava andando pela orla de Salvador, de carro, um tempo atrás. Olhei pra o lado e vi uma senhora tentando estacionar o carro. Nada demais, mas a mente vai fazendo conexões e acabei me lembrando de um dia em que ajudei meu primo Danilo Rebelo Alves a estacionar o carro dele, num evento qualquer de família, dando uma de flanelinha. E aí, continuando as conexões mentais, veio em minha cabeça que, se do lado da família de minha mãe Danilo é meu primo mais próximo, pelo lado da família de meu pai acho que Éder Galindo do Santos é o primo com quem mais estabeleci proximidade. Pois então, tô bem nesse ponto mental quando olho para o lado de novo e olha quem está ali? Éder, correndo com seu cachorro. Caceta, tinha muito tempo que não me batia com ele. E bem na hora que lembrei dele, ele aparece. Eu sou daquelas pessoas meio encucadas e que fica viajando que coincidências, normalmente, não são só coincidências...

Existe a lei da atração, o que pra mim é fato, disse ainda agora, né? É. O que a gente pensa, o que a gente mentaliza, funciona tipo ímã. É claro que não é só pensar em um milhão de reais que a grana aparece, mas acredito que, assim como alguns muitos cientistas já admitem tranquilamente que a mente é importante pra derrotar doenças, ou seja, o que a gente pensa gera reflexos físicos do lado de dentro do corpo, o que a gente pensa também influencia o mundo em volta. E aí acho que se encaixa perfeitamente a lei da atração. O que a gente mentaliza chega até a gente. E aquela onda do efeito bumerangue também rola, ter ódio, raiva, pensamentos escrotos, só atrai essas porra pra cima de nós mesmos.

Então, lei da atração comprovada (ao menos pra mim hehehehe), ok. Só que no momento em que encontrei Éder correndo com o cachorrinho dele, viajei que além da lei da atração, existe também a lei da percepção. Tem umas coisas que a gente sente sem precisar necessariamente ter visto, ouvido, passado a mão, sentido cheiro ou o gosto. Ou, no mínimo, sem ter a consciência de ter percebido isso. Acho que às vezes a gente simplesmente sente a coisa antes de saber mesmo que ela tá ali, sacou dacolé? Tipo um sentido a mais que a gente tem, mas que, ao não usar muito, a gente vai deixando ele meio empoeirado e enferrujado, atrofiando o coitado. Assim como os outros. Se a gente vai se acostumando a só usar a visão, a gente vai aos poucos perdendo a capacidade de perceber o que não é visto pelos olhos. Mas que a lei da percepção – com seus captadores internos no corpo humano – existe, isso, pra mim, agora, é fato também.

Flanelas pra lá!


Eu falei que lembrei de meu primo Éder porque lembrei de meu primo Danilo e, de Danilo lembrei porque fiz uma flanelagem pra ele. Fiquei lá ajudando ele a estacionar o carro, fazendo o papel de guardador de carros, o famoso flanelinha. Pois é, aí eu vejo esses dias um bocado de gente compartilhando naquela rede social, a famosa “caralivro”, uma matéria sobre um suposto projeto de lei que versava sobre os flanelinhas. < link do post no facebook > E o que é que falava ali?

“Em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, uma medida que deveria ser copiada e adotada pelo Brasil inteiro: começou a vigorar a lei que proíbe a atuação dos flanelinhas por entenderem que a rua é um espaço público que não pode ser privatizado. Os suspeitos de serem guardadores de carros, pegos em flagrante pela polícia, deverão ser encaminhados para projetos sociais da prefeitura. A intenção é encaminhar a pessoa para um setor de busca de emprego. Caso o suspeito se recuse, ele deverá responder pelo crime de exploração indevida da atividade nas vias públicas. Eu voto a favor.”

Assim... Pra mim isso parece somente a ideia de mandar pra longe o “lixo social” pra que não nos encha o saco. Eu já fui muito importunado por guardadores de carro, já me irritei, já discuti e os caralho com alguns deles. Sei que existe um problema ainda maior em relação às mulheres, que sofrem mais pressão ainda desses “donos da rua”. Certo, não to negando nada disso. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O texto fala que “Os suspeitos de serem guardadores de carros, pegos em flagrante pela polícia, deverão ser encaminhados para projetos sociais da prefeitura”. Rapaz, vamo tomar cuidado com esse papo aí. A gente tá cansado de saber que o Estado (latu senso) não dá conta de asilos suficientes, não dá conta de hospitais psiquiátricos suficientes, não dá conta de leitos suficientes em hospitais, não dá conta de abrigos pra mulheres que tenham sofrido violência domestica, não dá conta de políticas de inclusão dessas mulheres violentadas para que elas possam se tornar independentes, assim com não dá conta de políticas pra reinserir ex-detentos no mercado de trabalhado. Certo, então a prefeitura, o patinho feito da administração, o mais sem recursos, vai ter projetos sociais que vão dar conta de toda a parcela da população que já necessitava de inclusão/acompanhamento social e ainda vai dar conta de mais essa nova demanda? Rapaz... E o texto ainda diz que “A intenção é encaminhar a pessoa para um setor de busca de emprego”. O texto já diz que é a “intenção”. Se no projeto já tá apresentado assim, só na intenção, imagine a prática como vai ser...

Tem algumas coisas que acho que devem ficar mais claras. A necessidade do bróder que tá lá flanelando não vai ser eliminada com o encaminhamento dele para um setor de busca de emprego. Primeiro porque é bem fácil de não se encontrado emprego por não haver mesmo. Segundo porque o camarada provavelmente precisará de alguma preparação para ser inserido no mercado de trabalho, o que não vai acontecer num passe de mágica. E é muito fácil uma parte da população, a que tem carro, os classe média pra cima, pegar a falar: beleza, tá resolvido o problema. Manda eles pra lá pra longe. Tá resolvido o seu problema né pai? Porque o do flanelinha (ou ex flanelinha) certamente que não tá. Tá bem longe disso na real. Parece que mais uma vez essa suposta lei serviria somente como mais uma ferramenta pra legitimar repressão policial. É a velha história sobre a qual alguns camaradas inteligentes por aí, como o broder Foucault, já falaram: é colocar as classes subalternizadas umas contra as outras, para que não possam perceber que o verdadeiro motivo de suas lástimas está um bocadinho mais em cima na pirâmide social.

Em resumo eu poderia ir atrás pra ver se esse projeto existe mesmo, como é que ele está escrito, se existe uma realidade menos “vamos nos livrar desses entulhos humanos que ficam atrapalhando que nós da classe média cheguemos a nossos shows, bares e teatros”. Poderia discutir também a questão da "apropriação do espaço público", que acontece em uma série de outras situações e nada se fala a respeito, mas como os "apropriadores" nesse caso são só flanelinhas, é mais fácil de bater de frente. Mas a viagem aqui não é de chegar a conclusões não. Pelo menos não nesse momento. A ideia, acho, agora é só lembrar que é bom exercitar a reflexão um pouco, antes de sair apoiando qualquer causa por aí.

Pra não dizer que não falei das flores*
< link da música >

Tem horas que eu até esqueço mas eu me formei em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, na lendária Universidade Católica do Salvador. E pra não dizer que não falo de propaganda e pra não dizer que não falei das flores, lembrei dia dessas de uma campanha da uma cervejaria que dizia: redondo é rir da vida. Velho, eu vivo escaldando a propaganda e sua (dis)função social mas esse eu acho que é um exemplo do contrário, de uma propaganda bem legal, que tem uma mensagem bem positiva. Ah, tá vendendo uma droga que fode uma porrada de gente no alcoolismo, Certo, é uma merda isso. Mas dentro do espectro do mundo da propaganda, e do mundo das propagandas de bebida, acho que essa foi bala. Porra, as situações apresentadas na campanha são daquelas em que o cara que estava envolvido poderia facilmente, como se diz por aí, “dá pra ruim”. Porque são contextos meio escrotos, em que o cara é colocado num aparente “vexame social” e, ao invés de se irritar, o cara simplesmente se diverte e dá risada. Putz, muito legal. Estímulo à tranqüilidade. < link de um vídeo da campanha >

E daí, com a lei da atração sancionada, funcionando, tudo lindo pra terminar (o texto e começar o ano)em alto astral! Êa Candeia! Axé! E viva o ano novo! Ano novo pra o blog e ano novo pra mim também (é meu aniversário)! Uhu! Como dizia Emicida, que, só porque já “mordeu cachorro por um prato de comida” é, em pessoa, mais um milagre do povo, “vale a pena estar vivo, nem que seja pra dizer que não vale a pena estar vivo, mas vale a pena estar vivo”. < link da música do camarada >



legenda da foto: sol e água fresca pra todos já!


*Essa versão do link é ao vivo. É uma versão que já tinha um lugar na minha memória afetiva por haver existido um dia um vinil lá em casa com ela, de onde eu ficava voltando a agulha cuidadosamente pra poder anotar a letra toda. Tempos depois a versão ganhou outra referência afetiva por ter sido de onde o camarada Chiba D e seu grupo, o Opanijé < opanijé no myspace >, referência do Rap baiano, buscaram o trecho que foi sampleado na intro de mais uma ótima música deles.

P.S.: Como dito anteriormente, ano novo, renovação. Fim da linha pra todas as postagens antigas. Essa era a ideia, mas tem coisa que o blogspot tá dando pau na hora de deletar. Acho que ele tá a fim de curtir um pouco mais. Então tá bom, fica esse resquício aí.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Para onde eu vou...

mais um passeio entre memórias, pensamentos e coisas que nem sempre se conectam...


Eventos


Em Salvador existe um local chamado Parque de Exposições. Pela pegada dele, acho que deve ter sido criado pra exposições agropecuárias. É um local grande pra caramba. Mas ele tem uma tradição de ser também o local de grandes shows musicais e grandes eventos em geral. E desde que eu me entendo por gente, ia pra eventos por lá.

O pau da bandeira

Uma lembrança engraçada era a do sistema de som anunciando “Não-sei-quenzinha, seu pai te espera no pau da bandeira”. Que porra de lugar mais escroto pra alguém esperar alguém! Mas a real é que, por ter o parque uma imensa bandeira do Brasil que ficava visível a uma boa distância, acabou que aquilo virou referência pra encontrar as pessoas naquele espaço tão grande. O que me impressiona hoje também é por que diabos não falavam “no mastro da bandeira”? Putaquepariu, pau da bandeira pega mal demais e cabe até a clássica expressão baiana de saída de situações desconfortáveis: lá ele!

Pois então, me parece que aquilo era também uma realidade de uma cidade ainda não tão grande quanto é hoje a cidade de Salvador. Hoje em dia me parece meio complicado alguém chegar num evento tipo um Festival de Verão da vida e querer mandar recado pra encontrar pai, mãe, mulher, tio ou sobrinho por ali. Acho que o pau da bandeira vai ficar guardado (lá ele!) no hall das memórias afetivas e românticas (lá ele de novo)da infância.

Me lembro (sim, sim, dr corretor do Word, eu sei que era pra ser “lembro-me”, mas prefiro assim mesmo) da Festa do Interior, que, ao que me parece, depois virou Arraiá da Capitá, e de shows e acontecimentos épicos que rolaram por lá pelo Parque de Exposições. Lembro de ter feito tatuagem de rena, ter fumado cigarro e depois vomitado com minha mãe presente, ter dormido na grama... Mas musicalmente teve um dia específico que marcou muito.

Os Paralamas do Sucesso foram tocar na capital.

A esta altura de minha vida, vi alguns shows muito clássicos que estão guardados com muito carinho na minha memória. O primeiro show do Raimundos que vi em Salvador, o show dos Stones em Copacabana, o primeiro show da Nação Zumbi sem Chico, o mini-show de Lenny Kravitz no Rio, Sepultura na concha acústica do TCA, o SWU com Dave Matthews, Kings of Leon, Joss Stone e principalmente Rage Against The Machine... Pensando muito sobre qual teria sido o show mais importante, cheguei a uma importante conclusão: coisas desse tipo não se comparam. Cada um, cada um, cada momento sua importância. E dentre esses tantos, teve um dos Paralamas, na pré-história de minha vida, que eu não lembro o ano, só sei que eu era estudante ginasial ainda, mas que foi muito ducaralho.

Eu acho que o evento era o Arraiá da Capitá. Mas a ideia de ser um festejo junino, àquela época, já tinha se corrompido frente à lógica do mainstream-carnavalesco-baiano de fazer tudo quanto era festa em um mix de atrações do mundo do axé e expoentes pop nacionais. Tá, de quebra deve ter tido algum pseudo-forró. Mas, nesse contexto, teve um ano em que, em meio a atrações de tudo quanto é tipo, Herbert, Bi, e Barone fizeram um show mágico. O irmão de Hermano Viana ainda caminhava com suas próprias pernas nesse tempo e lançou no repertório, além dos clássicos dos Paralamas, coisas como Manguetown, de Chico Science e Nação Zumbi, Mantenha o Respeito, do Planet Hemp e, emendada com a música Luiz Inácio Falou, na hora do pam pam pam, pam pam pam, solta o camarada um Riders on the Storm, do The Doors. Caracas bróder, ali os caras brocaram muito.

Música, emoção, energia...

Assistindo o Rock in Rio pela tevê esses dias vi o show do Coldplay. Os caras tocando e milhares de pessoas cantando junto. Caralho, muito boa essa sensação. E aí lembrei de um outro show que nunca vou esquecer: A Grande Abóbora no Calypso, despedida de Nanda Abóbora que ia pra Zoropa e fim oficial da banda. A Grande Abóbora era a banda na qual eu tocava com uns amigos de faculdade. E o Calypso era um barzinho alternativo de Salvador. Okay, entre os milhares de espectadores do Coldplay e a casa lotada do Calypso com, no máximo, entulhando de gente, quase 200 pessoas, há uma diferença numérica significativa. Mas quando a gente tava tocando a música “O que eu quero”, de autoria do grande gênio da música alternativa baiana, Eduardo Queiroz de Sá, que percebi que a maioria absoluta das pessoas presentes estava cantando o refrão junto com a banda, fiquei de cara. A energia daquele momento foi foda. Naquele exato momento, a quantidade deixa de fazer sentido e a sensação, acredito, deve ter sido parecida com a que Cris Martin e sua banda tiveram.

Música, futebol... Caralho, eu também não consegui fugir disso...


Tava pensando sobre o futebol esses dias. Eu passei muito tempo amando e depois um bom tempo odiando o futebol. Mas quando falo o futebol, é o futebol oficial, institucionalizado. O baba, ou seja, o futebol amador praticado por diversão, sempre joguei e sempre gostei. E pensando um pouco sobre o futebol (latu sensu, ou seja o futebol no geral, a porra toda), viajei em uma coisa positiva dele...

Algum tempo atrás por aqui mesmo pelo blog falei sobre como o futebol ajuda as crianças a aprenderem a trabalhar em equipe, aprenderem a lidar com a vitória e com a derrota, etc. Mas eu andava bem desagradado já com a atenção excessiva e o clima de provocação da galera daquela rede social, o facebook, quando o assunto era o futebol institucionalizado. Pra quem é do estado da Bahia tem a onda do ba-vi eterno: se o Vitória ganha um jogo, e o Bahia perde, aí começa; se o Bahia ganha e o Vitória perde, começa de novo. Tem até uma galera que se satisfaz mais com a derrota do adversário do que com a vitória do seu time (o que pra mim parece um absurdo dos mais sem tamanho, mas tudo bem, outra hora falo disso). É um tal de provocação, piadinha, alguns perdem até os limites e partem pra agressões mais pesadas, daquela pegada de quem esquece que o futebol é só uma alegoria, é só uma diversão. Mas no meio dessa merda toda viajei numa onda interessante, que eu nunca tinha pensado: a coisa do “cada jogo, um desafio”.

Essa onda de, a cada jogo, fazer-se uma resenha, ter um resultado, mesmo que parcial, acho que dá uma sensação de mini objetivos que tornam mais objetivo (okay, é isso mesmo) o caminhar em qualquer situação da vida. É óbvio que o horizonte tem que existir, que os grandes planos têm que existir, que as aparentes utopias têm que existir. Mas os mini objetivos são meio que pequenos portos-seguros pra seguir a viagem da vida. Lá no trabalho, por exemplo, quando cheguei, que vi aquelas montanhas de processos, conversando com o chefe, ele disse uma coisa interessante, mais ou menos assim: se a gente não colocar objetivos pequenos aqui, objetivos diários, fica muito difícil ver resultados e, consequentemente fica muito difícil não ficar desanimado.

Mas e Quico?

Sim, mas e que porra que o futebol tem a ver com o que eu tava falando? Então, é que eu tava falando da energia do público cantando uma música junto com uma banda. Pois então, porque será que no futebol o time que joga em casa tem alguma vantagem? Me parece que é a conexão daquela galera. Se a torcida entra na mesma vibração do time, quando acontece essa conexão, a tendência é fortalecer mesmo.

Mas voltando à música...

Algumas imagens do show do Coldplay me lembraram um outro show, um que rolou em Salvador, dia desses, daquela banda gringa, Placebo. Na época eu ainda morava lá e pra completar, entre as bandas que iam abrir o show estava a Los Canos, banda formada por uns grandes amigos dos meus tempos de faculdade. Porra, massa, vou colar. E aconteceu lá uma cena que hoje seria totalmente absurda. Acontecia o show normalmente quando, sem mais nem menos, o vocalista do Placebo se jogou no meio da platéia. E eu olhando e pensando: porra, o cara aí é rock né? Deu o famoso mosh. Mas em pouco tempo deu pra entender o que tinha acontecido: o cara pulou no meio da platéia pra pegar a câmera de um carinha que tava gravando o show...

Todos os olhos

Hoje em dia, quando aparece uma imagem de qualquer show grande, como o do Coldplay do Rock in Rio, o que se vê é uma imensidão de câmeras, celulares e semelhantes gravando o show. Me parece que as bandas desistiram de reprimir isso. Infelizmente não creio que perceberam que isso é legal e que pode ser bom pra eles também, acho que foi por chegarem à conclusão de mera impossibilidade física de deter o exercito de “registradores”. E tem uma coisa sobre isso também que acho bem válida: é legal a onda de cada um registrar seu ponto de vista. Afinal são vários olhos. Acho que isso caminha em direção à coisa da famosa “democracia na comunicação”. Porque é muito fácil pegar e falar que vai democratizar a comunicação porque “agora a luz chega em todo lugar, todo mundo pode assistir tevê”. Democracia do caralho essa, né?! Você pode assistir à novela da Globo, tá de boa, tá democratizado... Rapaz, me bata uma garapa né? Democratizar mesmo a comunicação envolve o direito de produzir o conteúdo da comunicação, não só o de consumir o que foi produzido por outrem. E aí entra a viagem de cada um fazer sua filmagem e cada um apresentar o seu ponto de vista sobre determinado evento. Acho que faz parte do processo.

Todos os olhos, e não um só

Okay, Okay, essa realidade legal de mil produtores de informação dá margem a distorções até, é verdade. Se a gente não buscar mais de uma fonte, pode acabar achando que uma visão específica é a visão geral. Sim, sim. Que o diga o caso do vídeo no youtube que dizia “pouca gente viu mas Claudia Leitte foi vaiada no rock in rio”. Aí você abre o vídeo e tem um cara filmando ele e seu grupinho de 10 ou 12 pessoas xingando a cantora. Mas quando você vê outras filmagens, o que aparece é o público, em sua maioria absoluta, pra usar uma expressão bem carnavalesca baiana, pulando que nem pipoca. Na real no próprio vídeo que o cara tá xingando a cantora dá pra ver em volta o público pulando e se divertindo. Mas enfim, creio que esse perigo seja até maior quando não existe tanta diversidade de fontes, como é nessa realidade brasileira de monopólio/oligopólio/cartel da comunicação. Isso tá começando a mudar um pouco, em minha otimista opinião, mas sei que ainda estamos muuuuuuito longe de uma situação aceitável (aceitável, não to nem dizendo ideal).

De trás pra frente

Hoje uma das bandeiras principais de movimentos sociais é (ou na minha opinião deveria ser) a do chamado “direito de antena”, o direito de ter sua voz, de produzir a informação à sua maneira. E pensando nisso viajei na onda do livro História e Natureza das Ligas Camponesas, do camarada Stédile, quando surge uma observação interessante: a origem das ligas camponesas, ajuntamentos e todos os demais coletivos de agricultores, precursoras dos atuais movimentos relacionados à posse de terras, é, em geral, relacionada com o objetivo de ajudar os seus participantes a terem uma passagem para o outro lado da vida um bocadinho mais digno. Ou seja, o foco era bem de ter recursos pra proporcionar um enterro decente pra os desencarnados. Em que pese a importância que esse momento pode ter pra cada pessoa, convenhamos que hoje parece uma questão pequena em relação à quantidade de problemas enfrentados pelas populações do campo.

E aí outro livrinho (presente que recebi de meu querido irmão Ernesto Pereira Galindo) chamado Cidades Negras, faz referências também a situações semelhantes em relação à origem dos ajuntamentos religiosos afro-descendentes. Os autores colocam que seria objetivo primordial das irmandades religiosas dos afrobrasileiros e africanos no Brasil dar dignidade ao último momento do cabra deste lado da vida, como forma,, inclusive de garantir boa situação no outro plano. E o livro fala ainda da tradição de enterrar mortos dentro das igrejas e de sua proibição pelas autoridades sanitárias da cidade de Salvador, 1836, o que acabou por gerar o movimento chamado “cemiterada”. É mais uma vez o momento da morte ganhando importância para comunidades e organizações sociais que depois viriam a questionar outras coisas, a desenvolver outras demandas... É quase como se os questionamentos viessem de trás pra frente né? Vamo falar do fim da vida primeiro pra depois questionar a vida.

E eu quero o quê da vida com esse papo todo?

Não sei, é fato. Ando cada dia mais sem saber a intenção ou o sentido do que aparece aqui. Escrevendo emboladamente e emboloradamente. E se os caras que começam querendo direito de morrer decentemente, quando você vai olhar já querem ter voz, eu que comecei esse blog querendo ter voz, onde é que vou parar agora? Só Jah sabe.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Novo blog, novo visual, idéias não tão novas e autor quase manjado!

Ok, ok, me entreguei à derrota! Após mais de 3 anos de Caramujo News no blogger.com.br e após sumir pela quarta vez minha paradinha de comentários, me indignei e migrei. É triste, pois toda despedida é triste. Mas de repente pode ser sinal de um novo período na vida né? É! E se não é, acaba sendo!

Espero que a estadia aqui no blogspot.com seja mais traquila que a de lá. E espero não perder mais as poucas (porém importantíssimas!) palavras dos amigos que aqui comparecem.

Beijus e abraços, meus queridos! Cada um escolhe o seu!

Duda Borrão Galindo


P.S.: caracas, o apelido dado por Xande "Bactéria" Montenegro já entrou até no meu nome "altístico"!